INTRODUÇÃO
Até o início da década de 1980, compostos resultantes de síntese química dominaram completamente o mercado anti-helmíntico.
A descoberta das avermectinas, produto resultante do processo de fermentação produzido pelo microorganismo
Streptomyces avermetilis, isolado inicialmente de amostras de solo, pelo Instituto Kitasato, no Japão, e avaliado e desenvolvido nos Laboratórios de Pesquisa da Merck Sharp & Dohme, nos Estados Unidos, causou profundas mudanças com respeito ao controle de helmintos e de ectoparasitos em animais domésticos. Miller et alii, 1979, empregando cromatografia líquida de alta performance (HPLq ) identificaram oito compostos distintos como componentes das avermectinas originais. Avanços subsequentes relacionados à seleção de diferentes cepas de
Streptomyces avermetilis, bem como, nos processos de fermentação, extração, caracterização química e principalmente na determinação da atividade antiparasitária de diferentes avermectinas, levaram à definição de dois princípios ativos distintos, abamectin e ivermectin, porém com espectro e níveis de atividade muito próximos.
O abamectin é caracterizado como uma mistura de avermectinas, contendo no mínimo 80% de avermectin B1a e não mais do que 20% de avermectin B1b, sendo o ivermectin um derivado semi-sintético do abamectin, contendo no mínimo 80% de 22,23-diidroavermectin B1a e não mais do que 20% de 22,23-diidroavermectin B1b. Dados relacionados a aspectos químicos, toxicológicos e farmacológicos do abamectin e ivermectin envolvendo a participação de diversos pesquisadores foram editados por Campbell, 1989.
Durante mais de 10 anos a produção destas matérias-primas foi efetuada apenas pela companhia farmacêutica de origem norte-americana Merck Sharp & Dohme. Atualmente, outras companhias farmacêuticas capacitaram-se também na produção de abamectin e do ivermectin.
O presente trabalho teve como objetivo avaliar a eficácia dos produtos VIRBAMEC@(ivermectin) e VIRBAMAX@(abamectin) no controle de helmintos e do berne em bovinos, no Brasil, partindo-se de matérias- primas de fonte distinta, de origem chinesa.
MATERIAL E MÉTODOS
Avaliação da eficácia anti-helmíntica.
Teste controlado
Trinta bovinos mestiços, com idade entre 6 e 12 meses, naturalmente infectados por helmintos, foram adquiridos no Município de Itamonte, MG, e transferidos para as instalações da Estação para Pesquisas Parasitológicas W .O.Neitz, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ. Após a realização de exames de fezes individuais, empregando-se a técnica McMaster, os bovinos foram distribuídos em 5 grupos:
Grupo A - Controle não medicado, 6 bovinos;
Grupo B - Medicado VIRBAMEC@ injetável, por via subcutânea, na dose de 1 ml/50 kg de peso corporal, equivalente a 200 mcg de ivermectin/kg, 6 bovinos;
Grupo C - Medicado, IVOMEC@* injetável para bovinos, por via subcutânea, na dose de 1 ml/50 kg de peso corporal, equivalente a 200 mcg de ivermectin/kg, 6 bovinos;
Grupo D - Medicado, VIRBAMAX@ injetável, por via subcutânea, na dose de 1 ml/50 kg de peso corporal, equivalente a 200 mcg de abamectin/kg, 6 bovinos;
Grupo E - Medicado, DUOTIN@**, por via subcutânea, na dose de 1 ml/50 kg de peso corporal, equivalente a 200 mcg de abamectin/kg, 6 bovinos.
Exames de fezes individuais foram efetuados antes e após os tratamentos, empregando-se a técnica McMaster.
Todos os bovinos incluídos no teste controlado foram sacrificados entre o 12o e o 14o dia após a data do tratamento. As diferentes porções do trato digestivo, bem como o trato respiratório, foram abertas em bandejas separadamente e o conteúdo total fixado em formol acético, visando a quantificar e identificar as espécies de helmintos presentes.
A eficácia dos tratamentos foi calculada com base na seguinte equação: % eficácia = (média de helmintos encontrados no grupo controle - média de helmintos encontrados no grupo medicado) + (média de helmintos encontrados no grupo controle) x 100.
* IVOMEC - Merck Sharp & Dohme Farmacêutica e Veterinária Ltda.
** DUOTIL - Merck Sharp & Dohme Farmacêutica e Veterinária Ltda.
Avaliação em nível de campo da eficácia bernicida
Para avaliação da atividade dos produtos VIRBAMEC E VIRBAMAX no controle de infestações por larvas de
Dermatobia hominis foram efetuados ensaios de campo nos Municípios de Seropédica, RJ e Itamonte, MG, empregando-se doses idênticas às utilizadas no teste sobre avaliação anti-helmíntica.
Inicialmente foram efetuadas contagens individuais sobre o número de bernes vivos, presentes em nódulos subcutâneos de cada bovino incluído nos ensaios. Após os tratamentos, os animais foram novamente examinados e consideradas vivas as larvas de
D. hominis - presentes em nódulos subcutâneos, que apresentassem sinais de motilidade. Grupos de animais controles foram mantidos durante as avaliações, como indicação da flutuação natural do parasitismo, não sendo entretanto considerados para efeito de cálculo dos níveis de eficácia.
Estes cálculos foram realizados empregando-se a seguinte equação: % eficácia = (número médio de bernes vivos antes do tratamento - número médio de bemes vivos após o tratamento) / (número médio de bemes vivos antes do tratamento) x 100. Para efeito comparativo com respeito à eficácia bemicida, foram introduzidos, em alguns ensaios de campo, grupos medicados com os produtos IVOMEC@ e DUOTIN@.
Na avaliação da eficácia bernicida dos produtos empregados, os animais medicados foram novamente examinados no período de 7 a 14 dias após a data do tratamento. Em alguns ensaios, estas observações foram também efetuadas entre 5 e 7 semanas após o tratamento, visando avaliar a atividade residual dos produtos na prevenção de reinfestações por larvas de D. hominis.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No exame parasitológico do material colhido nas necropsias dos 30 bovinos empregados no teste controlado para avaliação anti-helmíntica, confirmou-se a presença das seguintes espécies de helmintos, principalmente nos animais controles:
Haemonchus placéi, Ostertagia ostertagi, Trichostrongylus axei, Cooperia punctata, Bunostomum phlebotomum, Oesophagostomum radiatum, Trichuris discolor e Dictyocaulus viviparus.
Os níveis de eficácia dos produtos VIRBAMEC@ e IVOMEC@, administrados na dose de 1ml/50 kg de peso corporal, por via subcutânea, equivalente a 200 mcg de ivermectin/kg, variaram entre 96,3% e 100% e 99,0% e 100%, respectivamente. A eficácia anti-helmíntica determinada nos tratamentos com produtos VIRBAMAX@ e DUOTIN@, empregados na dose de 1ml/50 kg de peso corporal, equivalente a 200 mcg de abamectin/kg, foram em ambos os casos de 100% .
Portanto, todos os tratamentos empregados foram muito eficazes no controle de infecções naturais por nematódeos gastrintestinais em bovinos.
A eficácia dos produtos no controle de
Bunostomum phlebotomum e do verme pulmonar
Dictyocaulus viviparus não foi computada em função do baixo nível de infecção dos animais, ou seja, apenas um bovino parasitado, entre os seis incluídos como testemunhas.
Com relação à atividade bernicida do produto VIRBAMEC@ em bovinos naturalmente infestados, verificou-se uma eficácia de 100%, quando avaliada entre a 1a e 2a semana após o tratamento, resultado idêntico ao observado nos animais medicados com o produto IVOMEC@.
Avaliação subsequente efetuada 43 dias após o tratamento com o produto VIRBAMEC@ mostrou um nível de infestação 94,0% inferior ao inicial. Neste período, os bovinos mantidos como testemunha apresentaram níveis de infestações 987,8 % superiores àquelas registradas no início do ensaio. Desta forma, conclui-se que o tratamento empregado, além de ser 100% eficaz na eliminação das larvas de
D.hominis presentes, também apresenta um período residual de proteção efetivo contra reinfestações.
Nos ensaios efetuados com o produto VIRBAMAX a eficácia determinada no controle do berne em bovinos variou de 99,5% a 100%, no período de uma a duas semanas após o tratamento. Em um ensaio efetuado com cinco bovinos, medicados com o produto DUOTIN, as infestações por bernes foram totalmente eliminadas, no 7o dia após o tratamento. As avaliações das infestações por larvas de
D. hominis efetuadas 38 dias após o tratamento, em 12 bovinos medicados com o produto VIRBAMAX , mostraram níveis 91,3% inferiores aos níveis iniciais. A variação natural das infestações dos bovinos mantidos como testemunha, neste mesmo período, foi de 198,7%, confirmando-se também um efeito residual de proteção contra reinfestações por larvas de
D. hominis . Ensaios efetuados no Brasil por Borja et alii, 1993, sobre efeito persistente do iverrnectin injetável , IVOMEC contra
Dermatobia hominis em bovinos, também mostraram baixos níveis de reinfestações a partir da 6a semana após o tratamento.
Durante a realização dos ensaios efetuados com os produtos VIRBAMEC e VIRBAMAX em bovinos não foi observada qualquer reação adversa relacionada aos tratamentos.
Desta forma, conclui-se que os produtos VIRBAMEC e VIRBAMAX foram muito eficientes e seguros, no controle de infecções por nematódeos gastrintestinais e nas infestações por larvas de
D. hominis em bovinos.
A utilização dos produtos IVOMEC e DUOTIL de forma comparativa com os produtos VIRBAMEC e VIRBAMAX , em algumas das fases do presente trabalho, indica níveis similares de eficácia, com respeito à remoção das espécies de nematódeos gastrintestinais presentes, bem como no controle de infestações por larvas de
D.hominis em bovinos. Entretanto, estes dados não devem ser generalizados, uma vez que, além do número limitado de animais medicados, estão baseados apenas na redução de cargas parasitárias, não incluindo avaliações sobre determinação química dos níveis e da sobrevida plasmática dos princípios ativos empregados.