Uso de Ivermectina aplicada via subcutânea na prevenção das miíases umbilicais em bezerros de corte criados extensivamente.
SUMÁRIO:
Desde o lançamento de Ivermectin no mercado brasileiro, no início da década de 80, um número crescente de pecuaristas tem usado este produto injetável por via subcutânea como maneira de prevenir o aparecimento de miíases umbilicais em bezerros recém-nascidos ou após operações de castração. No entanto, tal uso não consta nas indicações da bula do Ivermectin. Por ser uma indagação frequente avaliou-se o benefício da aplicação de Ivermectin em bezerros recém-nascidos em comparação com outros tratamentos.
Foram utilizados 432 bezerros, sendo a maioria da raça Nelore e alguns mestiços, recém-nascidos, machos e fêmeas, sendo 200 no primeiro ano (1989), e 232 no segundo (1990). À medida que os bezerros iam nascendo eram marcados e distribuídos sequencialmente nos diferentes tratamentos até atingir 50 e 58 bezerros em cada tratamento, respectivamente, para o primeiro e segundo anos.
Os tratamentos utilizados foram:
1- Testemunha (sem tratamento);
2 - Álcool iodado a 10% (10 gramas de iodeto de potássio, 10 gramas de iodo ressublimado e álcool q.s.p. 100 ml) (o cordão umbilical foi cortado dois dedos abaixo do umbigo e borrifado com a solução);
3 - Ivermectin (1 ml s/c) e,
4 - Ivermectin (1 ml s/c) + álcool iodado 10% (uma combinação dos tratamentos 2 e 3).
A dosagem de Ivermectin foi de cerca de 343 mcg/kg/peso vivo.
Dentro das condições do experimento, o Ivermectin e a combinação de Ivermectin + álcool iodado a 10% não diferiram (P>0,05) estatisticamente entre si. Também não diferiram (P>0,05) o álcool iodado a 10% e o Ivermectin. No entanto, o corte do umbigo e o uso do tratamento de Ivermectin + álcool iodado a 10% foi superior (P<0,05) ao tratamento com álcool iodado a 10% no controle de miíases. A incidência de miíases umbilicais nos bezerros do grupo testemunha, nos dois anos experimentais, foi de 40, 7%. O número total de miíases encontrado nos dois anos experimentais foi de 104 sendo, 37 e 67, respectivamente, para fêmeas e machos. Esta diferença foi estatisticamente significante (P<0,05). Do total de 432 bezerros nascidos nos dois anos estudados, 23 morreram até o desmame, resultando num índice de mortalidade de 5,32%.
INTRODUÇÃO
Miíase cutânea primária ou bicheira é a ectoparasitose causada pelas larvas de Cochliomyia hominivorax (COQUEREL, 1858) (Diptera, Calliphoridae). Foram relacionados vários fatores predisponentes para o aparecimento de miíases. Entre eles, incluem-se as lesões provocadas pelas cercas de arame, descoma, castração e a falta de desinfecção do umbigo dos recém-nascidos (PALOSCHI. 1985). Segundo levantamento feito, Brasil - Ministério de Agricultura (1983), as miíases cutâneas ocorrem em todos os Estados Brasileiros.
CARRAZZONI & AMAZÁN (1973) constataram na Argentina que as miíases de umbigo foram responsáveis por 10 - 15 % das mortes ocorridas nos bezerros nascidos nas províncias de Chaco e de Formosa no período de 1968 a 1970. BAUMHOVER (1966) estimou as perdas anuais oriundas de miíases por C. hominivorax em 20 e 50 -100 milhões de dólares respectivamente no sudeste e sudoeste dos Estados Unidos.
OLIVEIRA (1980) observou, no Estado do Rio de Janeiro, maiores populações de C. hominivorax nos meses de setembro-outubro e de maio-agosto. MADRUGA et alii (1984) fizeram um estudo sobre a etiologia de algumas doenças de bezerros no estado de Mato Grosso do Sul e observaram que, apesar de as fazendas terem cuidados com a desinfecção do umbigo, a onfaloflebite ocorreu com grande frequência. A cura ineficiente do umbigo se constitui em uma importante via de penetração de agentes patogênicos sendo uma das principais causas do aparecimento de doenças nos bezerros do nascimento ao desmame.
SPRADBERY et alii (1985) demonstraram que o uso de Ivermectin injetável foi efetivo no controle de miíases nas lesões de castração, e em infestações artificiais por Chrysomyia bezziana.
PERKINS (1987), demonstrou a efetividade de Ivermectin contra C. bezziana quando administrado subcutaneamente, numa dose de 200 mcg/kg em bezerros recém-nascidos, cujos umbigos foram tratados simultaneamente com um "spray" de 1 % de diclorfention.
A principal razão alegada pelos administradores de fazenda, para não efetuar corretamente a desinfecção do umbigo dos bezerros é a dificuldade de manejo. Segundo AMARAL (1988) existem muitos produtos químicos recomendados para o tratamento do umbigo, que são eficientes quando corretamente empregados (o álcool iodado é um deles, EMBRATER, 1978). Desde o lançamento de Ivermectin no mercado brasileiro, no início da década de 80, um número crescente de pecuaristas tem usado este produto como maneira de prevenir o aparecimento de miíases em bezerros recém-nascidos ou após operações de castração. No entanto, tal uso não consta nas indicações da bula do Ivermectin. Por ser uma indagação frequente, avaliou-se o benefício da aplicação de Ivermectin em bezerros recém-nascidos.
MATERIAIS E MÉTODOS
O experimento foi conduzido durante dois anos, no Campo Experimental de Terenos, ex-Fazenda Modelo, área pertencente ao Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (CNPGC), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), Campo Grande, MS. Foram utilizados 432 bezerros, sendo a maioria da raça Nelore e alguns mestiços, recém-nascidos, machos e fêmeas, sendo 200 no primeiro ano (1989) e 232 no segundo (1990).
Durante os meses de nascimento (agosto e dezembro), as invernadas maternidades eram percorridas diariamente pelos campeiros. À medida que os bezerros iam nascendo eram marcados e distribuídos sequencialmente nos diferentes tratamentos até atingir 50 e 58 bezerros em cada tratamento, respectivamente, para o primeiro e segundo anos.
Os tratamentos utilizados foram:
1 - Testemunha (nenhum tipo de cuidado com o umbigo do recém-nascido);
2 - Álcool iodado a 10% (10 gramas de iodeto de potássio, 10 gramas de iodo ressublimado e álcool q.s.p. 100 ml) (o cordão umbilical foi cortado dois dedos abaixo do umbigo e borrifado com uma solução de álcool iodado a 10%);
3 - Ivermectin (aplicação de 1 ml de Ivermectin, subcutâneo e nenhum cuidado com o umbigo do bezerro) e,
4 - Ivermectin + álcool iodado a 10% (aplicação de 1 ml de Ivermectin subcutâneo, corte de cordão umbilical dois dedos abaixo do umbigo e borrifação com solução de álcool iodado a 10%).
No segundo ano, nos tratamentos 2 e 4, aumentou-se a quantidade de iodo ressublimado na fórmula do primeiro ano para 15.20 gramas, como não houve diferença na redução do número de miíases entre as duas fórmulas, será adotada no texto somente a denominação álcool iodado a 10%.
Segundo ROSA et alii.(1986) os bezerros nelores, nos Estado de Mato Grosso do Sul, nascem com peso médio de 29,1 kg. Por isto, estima-se que a dose média utilizada foi de cerca de 343 mcg/kg/peso vivo.
Todos os bezerros que, após a aplicação dos tratamentos apresentaram inflamações ou miíases no umbigo, foram tratados com mata-bicheiras e outros produtos apropriados. No primeiro ano coletou-se larvas das bicheiras, em meio próprio, para posterior desenvolvimento e identificação no laboratório. Do nascimento até a idade de desmama os bezerros e suas mães ficaram em pastagem de Brachiaria decumbens e Brachiaria brizantha, recebendo o manejo (vacinações, sal mineral, etc.) de rotina do CNPGC; as mortes ocorridas foram anotadas. Entre seis e nove meses de idade os animais experimentais foram pesados e desmamados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Todas as miíases estudadas foram provocadas pela mosca Cochliomyia hominivorax.
Em geral, os tratamentos apresentaram uma diminuição significativa (P<0,05) no número de miíases, quando comparados ao grupo testemunha (Grupo 1).
Dentro das condições do experimento, o aparecimento de miíases umbilicais nos bezerros que receberam o Iverrnectin subcutâneo foi menor do que os bezerros que receberam o álcool iodado a 10%,porém , a diferença não foi estatisticamente significativa (P>0,05). O mesmo aconteceu com os grupos que receberam a combinação de Iverrnectin subcutâneo + álcool iodado a 10% e Iverrnectin, que também não diferiram (P>0,05) estatisticamente entre si.
No entanto, o tratamento de Iverrnectin + álcool iodado a 10% foi superior (P<0,05) ao tratamento com álcool iodado a 10% no controle de miíases. O número de miíases umbilicais, observadas no total de bezerros estudados no grupo testemunha (108), durante os dois anos experimentais, foi de 44, correspondendo a uma incidência de 40, 7%. Do total de 432 bezerros nascidos nos dois anos estudados, 23 morreram até o desmame, resultando num índice de mortalidade de 5,32%. No primeiro ano experimental, morreram oito animais sendo duas fêmeas e seis machos. No segundo ano morreram 15 animais, sendo seis fêmeas e nove machos.
O número total de miíases (69) no primeiro ano, 27 foram encontradas em fêmeas e 42 em machos. No segundo ano, o número total de miíases foi de 35 das quais dez foram observadas em fêmeas, e 25 em machos. O número total de miíases encontrado nos dois anos experimentais foi de 104 sendo, 37 e 67, respectivamente, para fêmeas e machos. Esta diferença foi estatisticamente significante (P<0,05).
A hipótese mais provável para o número maior de miíases encontrado em machos, pode estar relacionado ao comportamento da mãe em lamber com mais frequência o umbigo destes, devido a urina. Este comportamento aliado à própria urina irrita o local provocando um comprometimento na cicatrização do umbigo e consequentemente o maior número de miíases.
Ao curar o umbigo deve-se ter mais cuidado com os machos, uma vez que nestes, a ocorrência de miíases e a mortalidade são maiores, aliado ao fato de que estes animais possuem maior valor de venda.
Todos os bezerros foram pesados, à desmama não havendo diferença significativa (P>O,O5) entre tratamentos dentro do mesmo sexo; como era de se esperar, os machos são mais pesados que as fêmeas. O benefício principal do tratamento do umbigo é, portanto, evitar mortalidades nos animais jovens.
CONCLUSÕES
Dos resultados obtidos, durante os dois anos estudados, pode-se concluir que:
1- A incidência de miíases do umbigo foi de 40,7%;
2- O uso de Ivermectin subcutâneo e do álcool iodado a 10% quando aplicados isoladamente, nos animais, não foram estatisticamente diferentes na prevenção das miíases do umbigo de bezerros;
3- O corte do umbigo e o uso da combinação de Ivermectin subcutâneo + álcool iodado a 10% confere maior redução no aparecimento de miíases umbilicais em bezerros recém-nascidos e,
4- O principal benefício da cura do umbigo é evitar mortalidades especialmente nos machos, os quais são mais susceptíveis às miíases.