Avaliação da praticidade e efetividade no tratamento semanal da seborréia canina.
LUCAS, R.*; TALAUSKAS, G.Y.**; VAN CLEEF, M.***; PELEGRINI, C.***; BEVIANI, D.***
* Professor Adjunto da Disciplina de Clinica Médica de Pequenos Animais da ANHEMBI-MORUMBI e da UNISA
** Médico Veterinário Residente do HOVET da Universidade Guarulhos – UnG
*** Médica Veterinária Autônoma
RESUMO
Dada a inexistência de trabalhos abrangentes e detalhados, enfocando o uso de xampus com tecnologia de microvesículas, propôs-se avaliar a praticabilidade e efetividade do uso semanal de xampus com tecnologia Spherulitestm no tratamento da seborréia canina. Cento e setenta e nove animais foram submetidos ao procedimento, utilizando-se de: Sebocalm® Spherulites– 43 cães; Sebolytic® Spherulites – 65 cães; Peroxydex® Spherulites – 71 cães. Os quadros mórbidos, dos caninos tratados, consistiram em seborréia seca (24%), mista ou oleosa (37%), seborréia associada a foliculite (39%). Houve involução lesional, com a conseqüente resolução dos quadros em 96% dos animais, demonstrando o êxito do tratamento. O uso semanal de xampus com tecnologia Spherulitestm revelou-se um procedimento prático e bem exeqüível no tratamento da seborréia canina.
PALAVRAS-CHAVE: seborréia, canina, microvesículas, tecnologia Spherulites
INTRODUÇÃO
Os defeitos de queratinização e untuosidade podem representar diferentes dermatopatias, dentre estas a seborréia, que é uma dermatopatia crônica não contagiosa muito freqüente em cães e a quarta manifestação cutânea mais comum entre esses animais (SHANLEY, 1991). As lesões cutâneas são representadas por escamas farináceas, furfuráceas ou micáceas, aderidas ou não, comedos, alopecia, eritema, crostas, colarinho epidérmico, hiperqueratose e hiperpigmentação, podendo ocorrer ou não prurido, que quando presente será de leve a moderado (LUCAS, 2001). Com o diagnóstico firmado, o clínico deverá classificar morfologicamente a doença em seca , oleosa e mista, optando assim, pela melhor combinação dos princípios ativos, geralmente combinados em xampus, que são as principais “armas” na estratégia terapêutica dos quadros de seborréia. Após a escolha, os cuidados com os banhos devem ser observados, dispensando especial atenção à sua freqüência. Diversos autores (SCOTT et al., 1996) indicam que os banhos devem ser aplicados de duas a três vezes por semana, até o controle da sintomatologia. Posteriormente, o clínico passa a diminuir a freqüência destes banhos, de maneira que fiquem o mais distantes uns dos outros, porém segundo Scott et al. (2001), novas tecnologias, de encapsulamento de princípios ativos (Spherulites– microvesículas) têm propiciado que os banhos sejam administrados com maior intervalo de tempo. Esta nova tecnologia representa um novo conceito em encapsulamento, permitindo a liberação controlada do ingrediente ativo e sua precisa distribuição no sítio de ação, aumentando tanto sua biodisponibilidade, quanto seu período de ação. Propiciando, desta forma que a freqüência dos banhos seja menor, possibilitando um maior conforto ao animal e seu proprietário, durante o tratamento da enfermidade. Em 1991, Halliwel cita que a escolha de um xampu anti-seborreico é muito mais arte do que ciência, entretanto o clínico deve ter conhecimento do efeito de cada fármaco por ele utilizado.
Figura 1: Cão, Macho, Basset Hound, com lesões alopécicas e circulares em quadro de foliculite associada à seborréia.
Figura 2: Mesmo Animal da Figura 1, após terapia com Peroxydex Spherulites.
OBJETIVOS
Baseado no exposto, o presente trabalho utilizando-se de xampus com tecnologia Spherulites objetivou avaliar: a efetividade do controle do quadro clínico com banhos semanais; a praticabilidade da aplicação dos produtos, assim como a qualidade dos banhos além de caracterizar o surgimento de efeitos colaterais.
MATERIAL E MÉTODOS
Utilizaram-se 179 cães atendidos nos Hospitais Veterinários das Universidades Guarulhos (UnG) e Santo Amaro (UNISA). Após realização de exame clínico o diagnóstico presuntivo era confirmado, indicando-se, então, o protocolo terapêutico de um banho semanal com Sebocalm® Spherulites (ácido lático, uréia, glicerina e microesferas) para cães com seborréia seca, Sebolytic® Spherulites (ácido salicílico, enxofre, alcatrão e microesferas) para cães apresentando seborréia mista ou oleosa (figura 3) e Peroxydex® Spherulites (peróxido de benzoíla 3,5%, glicerina e microesferas) para aqueles animais com seborréia associada a foliculite (figua 1). Os proprietários foram inquiridos sobre a melhora do quadro, tendo sempre como critérios de avaliação: desaparecimento ou piora do quadro clínico, surgimento de efeitos colaterais e qualidade e odor do pelame.
RESULTADOS
Em função da metodologia aplicada, pôde-se estabelecer o diagnóstico de seborréia seca em 43 (24%), mista em 27 (15%), oleosa em 38 (21%) ou associada a foliculite em 71 (40%) dos 179 animais da espécie canina. Sendo 104 (58%) fêmeas e 75 (42%) machos, onde 143 (80%) eram cães com raça definida. A maioria dos proprietários considerou positiva a qualidade da espuma em todos os produtos. Com relação ao odor do seu animal após os banhos, proprietários que utilizavam Sebocalm® Spherulites fizeram uma melhor avaliação do que os que utilizavam Sebolytic® Spherulites e Peroxydex® Spherulites. Já quando questionados sobre a qualidade do pelame, 84% dos proprietários opinaram positivamente.
Obteve-se melhora (figuras 1,2,3 e 4) em 172 (96%) dos 179 cães submetidos à terapia com xampus Spherulites. O tempo para melhora significativa (melhora superior a 70% em relação ao quadro inicial) foi de apenas 20 dias (3 banhos) para 64 (37%), 40 dias (5 banhos) para 71 (42%), 60 dias (8 banhos) para 28 (16%) dos 172 cães. Somente 9 (5%) animais levaram mais do que 60 dias para apresentar melhora significativa. Dentre os cães (71) tratados com Peroxydex® Spherulites, 3 (4,25%) animais apresentaram efeitos colaterais (prurido e/ou irritação) após os banhos.
Figura 3: Cadela, Teckel, com: hiperpigmentação, hiperqueratose e untuosidade, em quadro de seborréia.
Figura 4: Mesma cadela da figura 3, após terapia com Sebolytic Spherulites.
DISCUSSÃO
Quando se opta por um tratamento baseado em xampus anti-seborreicos, depara-se com elementos fixos e variáveis, quais sejam os ingredientes ativos dos xampus; e sua concentração e freqüência de administração de banhos respectivamente, como afirma Halliwell (1991). Geralmente são indicados banhos duas ou três vezes por semana, durante duas a três semanas para que se possa reduzir a contagem de corneócitos próximo da normalidade, e então a freqüência é gradualmente diminuída e ajustada para manutenção com base na necessidade individual de cada cão (SCOTT et al., 1996).
No entanto, os xampus Spherulites permitem uma menor freqüência de banhos, pois prolongam a ação dos princípios ativos na pele (GATTO; RÈME, 2003) , como observado no presente estudo, onde 79% dos cães obtiveram uma melhora do quadro inicial maior do que 70% em apenas 40 dias, ou seja, com cinco banhos. Os efeitos colaterais observados com Peroxydex® Spherulites (peróxido de benzoíla à 3,5%), não foram superiores aos observados por outros autores (LUCAS, 2001; SCOTT et al., 2001) em xampus contendo 2,5% do princípio ativo.
CONCLUSÕES
· Os resultados finais em termos de resolução do quadro clínico, da ordem de 96% dentre os caninos tratados, retratam o êxito do protocolo terapêutico;
· A interposição terapêutica semanal com xampus Spherulites foi considerada prática e de fácil aplicação pelos proprietários;
· Observaram-se efeitos colaterais no pós-banho imediato (Peroxydex® Spherulites) em 4,25 % dos cães, sendo estes de pouca importância, na óptica dos próprios proprietários.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· GATTO, H.; RÈME, C.A. Designing a new range of topical products - The ALLERMYL® story. Disponível em <http://www.vetcontact.com/presentations/gatto_reme1/abstracts/gatto_reme.pdf>. Acesso em: 31 de maio de 2004.
· HALLIWELL, R.E.W. Rational use of shampoos in veterinary dermatology. Journal of small practice. n.32, p.401-407, 1991.
· LUCAS, R.; FERREIRA, C.B. Avaliação do uso da associação do ácido salicílico, enxofre e óleo de xisto no tratamento da seborréia seca em cães. A hora veterinária. n.124, p.50-54, 2001.
· SCOTT, D.W.; MILLER W.H. Primary seborrhea in English Springer Spaniels: A retrospective study of 14 cases. Journal of small animal practice. 5th. ed. Saunders n.37, p.173-178, 1996.
· SCOTT, D.W., MILLER, W.H., GRIFFIN, C.E. Muller and Kirk's Small Animal Dermatology. 6th. ed. Saunders. p.737-743, 2001.
· SHANLEY, K.J., The Seborrheic Diseases Complex. An approach to underlying causes and therapies. Veterinary clinics of North America: Small animal practice, n.32, p.401-407, 1991.